Tight end: por que é tão difícil o desenvolvimento da posição no Brasil?

Por Maurício Faé – Treinador e Scouter // Santa Maria Soldiers.

“Tight end é um híbrido entre um ofensive lineman e um wide receiver”, certamente você já ouviu essa frase por aí, mas ela é realmente verdadeira?

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Penso muito sobre essa frase e não consigo chegar a uma conclusão, pois de fato ela tem sentido teórico, mas ainda me questiono sobre a parte prática dela. Tendo a NFL como parâmetro, quantos tight ends vocês conhecem que realmente são bons bloqueadores e recebedores?
Provavelmente, do o título até aqui, vocês estão tentando lembrar sobre os bons tight ends da liga e dificilmente tenham ido além de Rob Gronkowski, Travis Kelce e George Kittle, talvez os acompanhantes mais assíduos da NFL tenham lembrado dos tempos áureos do Jimmy Graham em New Orleans e agora do Darren Waller nos Raiders, mas certamente a lista começa a diminuir depois desses nomes.

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Analisando de forma superficial esses 5 nomes, talvez Gronk e Kittle sejam exímios bloqueadores e recebedores, já os outros 3 são ótimos recebedores, mas que convivem com críticas em relação a sua qualidade bloqueando. Todos têm ou tiveram destaque na liga, então o tight end precisa mesmo ser excelente em ambas as características para ter relevância? Para mim a resposta é: DEPENDE!


Um tight end deve se adaptar ao sistema de jogo do seu time, ou melhor, o estilo de jogo do seu time é que deve se adaptar ao seu tight end. A disputa Kelce x Kittle só existe porque tanto o ataque dos Chiefs quanto o dos 49ers é estruturado para tirar o máximo desses dois jogadores. Kelce foi um dos jogadores com mais jardas recebidas na temporada 2020/21, recebendo muitos passes do Patrick Mahomes, enquanto Kittle é lembrado pelo dinamismo que traz para o jogo corrido por zona do Kyle Shanahan. Agora pensem comigo, eles teriam o mesmo sucesso se os times e sistemas fossem invertidos? Provavelmente não…


Dentro da nossa realidade, é inegável que o futebol americano no Brasil (FABR) ainda está bem atrasado no desenvolvimento da posição, mas por que? Nossos jogadores não são bons o suficiente? Eles não entendem o objetivo da posição? Falta físico?… Garanto que vocês já ouviram muito esses questionamentos, mas quero trazer aqui um que é pouco falado: Será que nossos treinadores sabem como formar e utilizar um tight end?


Travis Kelce não é um exímio bloqueador, porque o tight end do seu time precisa obrigatoriamente ser? Será que o problema não está no seu sistema de jogo? Será que o coach não está querendo colocar um tight end recebedor na linha de scrimmage para bloquear um defensive line? Vou além, tecnicamente falando, teu time tem um coordenador de posição? Se sim, esse coordenador domina a demanda técnica que a posição exige? Ele consegue transmitir isso para os atletas?


Esse texto é uma provocação aos treinadores do FABR, e eu me incluo aqui. Nós realmente sabemos treinar e utilizar um tight end? A culpa é dos atletas que não tem o físico necessário ou é do treinador que não sabe os preparar para a função? É do jogador que não estuda a teoria ou do treinador que implanta um sistema com 4 wide receiver e deixa a posição em segundo plano? Questões para refletirmos…

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Olhando pelo lado defensivo, jogar contra uma equipe que utiliza tight ends é muito mais difícil, pois traz fatores extras ao jogo. Aumento de superfície na linha de scrimmage, novos gaps, matchup no jogo aéreo, entre tantas outras possibilidades que geram conflito na defesa. Para criar algumas dessas situações de estresse, o tight end não precisa necessariamente ser um ótimo recebedor e bloqueador, mas ele pode trabalhar e evoluir um desses dois pontos e ser extremamente útil e eficiente para o ataque. E aqui entra o trabalho do treinador que é saber o perfil dos seus atletas e montar um sistema de jogo baseado no que tem em mãos.


Bom, até aqui tenho atribuído toda culpa da lentidão na evolução da posição no Brasil aos treinadores, mas não é algo exclusivo, os atletas também têm a sua parcela. Queira ou não, a descrição como híbrido entre ofensive lineman e wide receiver ainda nos confronta e aumenta bastante a demanda técnica e física. O jogador pode ser mais forte como bloqueador que como recebedor, mas ele não pode simplesmente ignorar a outra função, afinal de contas em algum momento ele será recrutado nos dois pontos. O treinador ensina, guia e auxilia, mas não é ele que coloca tudo isso em prática, é o atleta que vai para o campo, é o jogador que precisa trabalhar a parte física e deixar seu corpo apto para a posição.
Formar um bom tight end demanda evolução física e mental por parte do atleta, mas também encaixe no sistema de jogo desenvolvido pelo treinador, então façamos uma mea-culpa pela lentidão no desenvolvimento e talvez assim a posição comece a ter um destaque maior nos próximos anos no cenário nacional.

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