Tide Remember: Toddy, camisa 1 // Rodrigo Zanini de Mattos

Leonardo Siqueira // Tide Football & Futebol Americano Paranaense

Grandes times tem grandes quarterbacks. É verdade que alguns times já foram campeões sem um grande lançador e que grandes lançadores já encerraram a carreira sem serem campeões. Mas no imaginário, no sonho do torcedor, sempre há uma grande referência.

Fotografia: Dayane Wosch

A história do futebol americano no Paraná conta que um jovem adulto de 21 anos se destacava nos treinos do Curitiba Hurricanes, lá pelos idos de 2008. Um garoto alto, que havia deixado pra trás o sonho de se profissionalizar no basquete, e que via no futebol americano a possibilidade de se manter próximo da vida de atleta sem necessariamente deixar pra trás uma carreira profissional em um emprego “menos badalado”.

Meio sem querer, Rodrigo Zanini de Mattos, conhecido como Toddy (apelido que vem da época de garoto quando a barba e o bigode ainda eram ralos), foi um dos pivôs (com o perdão do trocadilho) da revolução que fez com que um grupo de insatisfeitos deixasse o Hurricanes e fundasse uma nova equipe: o Curitiba Centurions.

Quis o destino, e o presidente Nilo Tavares, que o Centurions não existisse por muito tempo e logo fosse absorvido pelo Crocodiles. Nilo via, com razão, muita qualidade no roster da nova equipe, nomes que vieram a defender a seleção brasileira alguns anos mais tarde como Ricardo Schultz, Felipe “Luvas”, Gerard Kaghtasian Jr e Toddy.

Acontece que novamente o garoto ficaria no banco. O quarterback do Croco era Fabio Naldino, um dos fundadores da equipe, e comandava as jogadas ofensivas da equipe, trabalhando também como coordenador ofensivo. O time tinha o costume de usar mais de um quarterback, geralmente com Naldino e Dafnes, mas a chegada de Toddy deu uma nova força no setor.

Toddy usava o número 5 desde a época do basquete e o levou também ao Hurricanes e depois ao Centurions, mas a fase não era boa. O rendimento no basquete caiu e a carreira no futebol americano não parecia deslanchar. Foi aí que ele pensou em trocar de número. Se fosse para trocar de número, era preciso valer a pena e, para isso, precisava ser campeão. E levar consigo a marca estampada no peito para sempre. Assim, o quarterback passou a usar a 1.

É difícil mensurar o impacto da nova numeração no seu rendimento dentro de campo, mas grandes histórias possuem uma mística característica. Seus primeiros snaps pelo Crocodiles foram dados em um jogo histórico para os crocodilos, a primeira vitória sobre o Brown Spiders, durante o Torneio Touchdown de 2009. Apesar de não ter sido o grande responsável pelo resultado Toddy debutou em grande estilo, quase como um sinal do que viria pela frente. Sua primeira grande atuação estava reservada para o futuro, mas também seria contra os rivais.

O palco foi a primeira edição do Paraná Bowl, em dezembro de 2009, no Flamenguinho em Curitiba. O Croco vencia o jogo por 12 a 7 e tinha a posse da bola no fim do terceiro quarto. Toddy fez uma campanha longa, de quase 12 minutos, alternando corridas e bons passes, para sacramentar o primeiro título da equipe.

Muito dinâmico e com grandes peças, o ataque do Croco nos primeiros anos da era full pads era recheado de estrelas no esporte paranaense e tinha características interessantes. Talvez a principal delas era de que os quarterbacks, em geral Naldino e Toddy, não jogavam a partida inteira. Cada atleta comandava o ataque por dois quartos, tendo Naldino como starter, e isso fazia com que os adversários precisassem estudar os dois QBs na preparação para a partida.

Estratégia, sim, mas não apenas isso. O esporte nessa época era muito diferente do encontrado hoje no Brasil, onde as equipes buscam cada vez mais se aperfeiçoar e ter treinadores para as posições. Todos queriam jogar e tinham qualidade para tal. É interessante notar, porém, que o playbook era único, mas que cada QB usava de forma diferente, dando assim sua “cara” às jogadas.

Bicampeão estadual, o Croco virava sua atenção ao nacional em 2010. A forte equipe confiava em seu potencial, mas ainda não era temida fora do estado. Faltava casca, já que, apesar de semifinalista no ano anterior, havia batido apenas rivais regionais (Brown Spiders e Gladiators). Agora no primeiro Brasileiro organizado pela AFAB, o Croco novamente se impôs no Sul e teve o São Paulo Storm, vice campeão em 2009 e base da seleção paulista, como adversário na semifinal.

Naldino era o starter e vinha jogando a maior parte dos drives o ano todo, mas a situação da partida não era favorável. A entrada de Toddy foi uma tentativa da comissão técnica de tentar mudar as coisas e trazer o Croco de volta à partida e o resultado apareceu. Bater o Storm não foi tarefa fácil, mas o placar de 13×12 teve Toddy como destaque: o quarterback aproveitou uma blitz adversária para lançar um passe longo e conectar o touchdown com Shaye Patel (cornerback recém chegado ao ataque). Com isso, o Crocodiles deixava o regionalismo para surgir entre os grandes nacionais e, apesar da derrota contra o Arsenal na final, se colocava como pretendente ao título.

A primeira temporada de Toddy como starter foi em 2011 e, com ela, o tricampeonato paranaense. Mais uma vez o Croco chegava à final do nacional, dessa vez disputada em pleno Estádio Major Antônio Couto Pereira, em Curitiba, sob a alcunha de Coritiba Crocodiles, mas novamente os paranaenses bateram na trave e ficaram com o vice campeonato. Apesar disso, o desempenho individual rendeu ao atleta sua primeira (e única) convocação para um training camp da seleção brasileira.

Jogar e estar em alto nível, no esporte amador, também significa estar propenso às lesões, e Toddy não foi exceção. Apesar de não ter tido uma temporada ruim, uma lesão séria no joelho marcou o 2012 do atleta. Além disso, o trabalho começava a tomar cada vez mais tempo e, graças a uma viagem de trabalho que o fez perder a pré temporada, Toddy se tornou o quarto quarterback do roster do Croco no inicio da temporada de 2013. A chegada do coach Johnny Mitchell mudou muitas coisas na equipe e ele usou o estadual para testar seus quatro quarterbacks em busca da melhor opção no nacional.

Uma das grandes novidades com a chegada de Mitchell foi que agora era ele quem chamava as jogadas, de dentro da sideline, afetando diretamente a maneira como os QBs se portavam. Toddy se adaptou bem à esse processo e aos poucos foi recuperando seu espaço no elenco. O camisa 1 foi starter e jogou inteira a decisão sendo mais uma vez decisivo, agora no quinto estadual seguido (sendo MVP), mas a grande conquista ainda estava por vir: o Croco se sagrou campeão brasileiro pela primeira vez, batendo o João Pessoa Espectros no Estádio Teixeirão na Paraíba, fechando o ano invicto com 17 vitórias em 17 jogos.
Mas a fase boa trouxe novamente as dores de uma lesão. Em um treino, durante o estadual de 2014, Toddy rompeu o LCA e fez a cirurgia apenas após o fim do torneio. Ainda assim, machucado e dividindo snaps com JP Colantuono, foi com Toddy que o Croco chegou ao touchdown na final do estadual contra o recém formado Paraná HP. Se recuperando da operação, o camisa 1 voltou aos poucos aos gramados, se colocando como opção de quarterback mas trabalhando também na preparação de seu sucessor. Assim, quando o Croco venceu novamente o Brasil Bowl, Toddy era o suplente.

O grande sucesso da equipe dentro de campo, na verdade, acabou não sendo a principal motivação do quarterback. Desenvolver atletas e fomentar uma base para o futuro foram diretrizes que criaram raízes maiores durante o período em que ele esteve lesionado. Multi campeão, o Croco tinha basicamente a mesma base de atleta desde a união com o Centurions. Com a frase “você precisa preparar o próximo você” , o camisa 1 ajudou a construir os primeiros passos do desenvolvimento de atletas no Croco, tendo em Adan Rodrigues (WR da equipe e da seleção) um grande parceiro na missão, vindo a repetir a dose anos mais tarde na comissão técnica da seleção paranaense sub 20 bicampeã nacional.

Com todos esses acontecimentos, o ano de 2015 foi de transição. Toddy ainda atuava como quarterback mas cada vez mais assumia funções extra campo, especialmente na comissão técnica. A temporada ainda teve alguns pontos altos que merecem destaque, como a semifinal nacional disputada na Arena Pantanal contra o Arsenal, com público recorde de 14 mil espectadores, e o Brasil Bowl que, apesar da derrota, teve uma das melhores atuações individuais da carreira do camisa 1.

As estatísticas exatas são de difícil acesso. Nem tudo era muito bem registrado e nem os atletas se importavam tanto com isso. Em um levantamento recendo do Mapa do FABR, Toddy lançou para 43 touchdowns apenas em partidas do campeonato estadual. Levando em conta os nacionais, esse número é com certeza ainda maior. São poucas as pessoas que conseguem largar o futebol americano para sempre, mas a idade chega para todos. Saber a hora de parar é importante e ter a consciência e os meios para preparar o terreno antes disso são qualidades raras. Toddy teve uma carreira longa, vitoriosa e que se estende para além de seus passes e touchdowns.

Uma resposta para “Tide Remember: Toddy, camisa 1 // Rodrigo Zanini de Mattos”

  1. tide4football disse:

    Fala cria, a foto é do próprio redator https://leonardo-ff-siqueira.medium.com/59181596be11 segue a direção é noixxx abc

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