Vitórias não são pra todos. Fé também não.Vitórias não são pra todos. Fé também não.

Vitor César Dutra – Mochila // AFC Fraternidade Cristã de Atletas

Todo time você sabe quem é que se prepara pra vencer e quem não. Se você está nesse grupo, você sabe quem está nele com você. E também sabe quem não está e vai te ferrar e você terá de carregar se quiser vencer. Se você não sabe se tá nesse grupo, bem…provavelmente você não está mesmo. Veja bem, não estou falando se fulano ou ciclano está efetivamente ajudando o time a vencer ou não, estou falando se ele está fazendo o que ele tem de fazer para se preparar da melhor maneira possível para vencer. É outra coisa.

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O padrão comportamental é bem diferente. E já foi explicado por muita gente muito mais esperta que eu.

Tomás de Aquino, filósofo renomado, fez alguns trabalhos sobre o que ele chamou de “faculdades humanas”. Neste trabalho ele mapeou sua proposição das motivações do comportamento humano e identificou, dentre o que ele chamou de “paixões da alma” o apetite concupiscível e o apetite irascível. Nomes difíceis, eu sei, mas o conceito é bem simples: o primeiro é o desejo de fazer coisas que te fazem se sentir bem. O segundo é o desejo de fazer as coisas corretas. Um é relativo ao que Tomás chama de “bens desejáveis”, o outro é relativo a “bens árduos”.

Um é gostosinho de se fazer. O outro é um saco de se fazer.

Um é imediato. O outro é duradouro.

Um é relativo à alegria, satisfação e conforto. O outro é relativo à justiça, bondade, felicidade e amor.

É fácil identificar esses dois padrões comportamentais bem distintos: você enxerga algum jogador se inclinando mais aos bens árduos quando ele constantemente treina muito duro, em treinos que são desconfortáveis e passa muito tempo fazendo coisas que não são prazerosas de se fazer, para que ele tenha um prazer superior como recompensa.

De igual forma, é fácil você enxergar o jogador que treina bem quando “tá no embalo” de alguém, que estuda por pressão dos companheiros e ama fazer highlights de qualquer coisa. É o jogador que quer se sentir bem imediatamente, não de forma duradoura. Este se inclina mais aos “bens desejáveis”.

Ambos estes comportamentos são guiados por algo que Jordan Peterson, PhD em psicologia e professor de Harvard e da Universidade de Toronto, chama de “sistemas de crença”. Basicamente, é a maneira como um indivíduo elabora suas crenças e como estas sustentam sua interpretação da vida, e por consequência, seu comportamento.

Ao ouvir a palavra “crença” talvez você tenha esbarrado em uma leve objeção na sua mente. Algo tipo “eu não tenho crenças”, ou “pera, estamos falando das minhas crenças aqui?”. Pois bem, deixe-me explicar:

Talvez você nunca tenha se dado conta disso, mas tudo, absolutamente tudo que você faz e pensa é a partir de alguma crença de alguma coisa, seja ela qual for. Você toma água por ter a crença que tomar água te faz bem. Você paga seus impostos (ou não rs) por ter a crença de tal prática ser certa ou ser errada. Muitas crenças são pautadas em fatos observáveis, como estas que te mencionei. Mas outras, igualmente importantes, não. Você apenas as tem e muito provavelmente aprendeu com alguém que também as têm, mas nenhum de vocês sabe de onde veio isso.

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Você acredita que abuso sexual de crianças é errado (ou assim eu espero!!). Você acha que você acredita nisso porque a sociedade assim diz, porque seria ruim para a sociedade e porque vai contra a lei. Você sabia que existem culturas nas quais tal prática é super normal? É bem assimilada e tal. Não é crime, nem é mal visto. Tais sociedades têm funcionado tranquilamente com essa prática horrenda. No caso do Camboja, por exemplo, a falta de leis contra a pedofilia é até um apelo turístico: durante muito tempo, pedófilos muito ricos escolhiam passar as férias lá pra estarem impunes. Toda sociedade tem sua prática horrenda mas “permitida”. Aqui no Brasil, a nossa é o “jeitinho brasileiro”, uma alusão a corrupção. Em países pouco desenvolvidos e super arcaicos, essa prática é, em alguns casos, abuso de menores. No mundo antigo, inclusive, isso era norma nas sociedades helênicas.

Abusar de menores, porém, não deixa de ser errado, mesmo que alguma cultura tenha normalizado isso. Não deixa de ferir algo intrínseco à existência humana. E certamente não é apenas uma imposição social. De onde vem, então, a sua crença de que isso seja errado? Certamente ela deve ter vindo de algum lugar. Vocês talvez pensem “veio da minha educação!”. Pois bem, vai lá e pergunta pros seus pais ou pra quem te criou de onde veio essa crença que eles te passaram. E aí depois pros seus avós e etc. Eu te garanto que a primeira pessoa a passar essa crença adiante adquiriu ela só porque sim. Quase como se sendo algo inerente ao ser humano.

Agora você descobriu que até os chamados “direitos humanos” são totalmente baseados em crenças. Tudo que a gente faz é.

Tá vendo como você acredita em muito mais coisa do que você acha e como o que você acredita faz muita diferença? Voltemos aos nossos exemplos no futebol americano.



O jogador que se prepara pra vencer tem esta crença de que, se ele se esforçar e fazer tudo que deve fazer, ele será recompensado. O jogador que não o faz, ele tem a crença de que a vida talvez seja longa demais pra construir coisas duradouras, e que o que se tem é o agora então neste agora lhe cabe ser feliz. Ambos adquiriram estas crenças de alguma maneira e talvez nem perceberam. Ambas não são passíveis de prova. Não estão no âmbito da realidade observável, pois na realidade você encontra evidências de ambas as crenças. Tanto da crença de quem ralou e teve sua recompensa, quanto de quem ralou e se ferrou e deveria ter curtido mais a vida.
Não é improvável assumir que ambos estes indivíduos já tiveram ambas estas experiências, também. Mas claramente, a crença resultante destas experiências para ambos foi diferente.

E com isso, espero que você perceba que, assim como você acredita em muitas coisas que talvez nunca tenha notado e que essas crenças são muito importantes, quero que você note que VOCÊ é um fator em determinar quais crenças você leva consigo.

Quais crenças você alimenta.

Quais crenças regem teu comportamento.

Agora começa a parte do texto só pra gente grande.

Se você é um fator em determinar as crenças que você cultiva e suas crenças afetam todo o seu comportamento em todas as áreas da sua vida, você tem a responsabilidade de forjar suas crenças de forma que estas sejam legítimas e não te falhem.

Se aquilo no qual você crê falhar, se mostrar irreal, se mostrar apenas uma aposta mal feita ou fruto da sua imaginação, então seu comportamento vai junto. Talvez este seja o caso do exemplo do jogador que não se prepara pra vencer. Talvez um dia ele tenha acreditado que se ele se comportasse excelentemente, ele teria sua recompensa em forma de vitórias e reconhecimento. E não teve. Talvez outras coisas tenham interferido, e ele tenha observado sua crença colapsar em frente ao seus olhos. Seu comportamento colapsou junto.

Se você observar esse fenômeno fora do meio esportivo, então, o bixo pega. Creio que muitas pessoas hoje sofram de tantas crenças colapsadas que elas não sabem mais no que acreditar. A crença em relacionamentos, a crença em sucesso, a crença em família, a crença no bem, a crença na generosidade, a crença na educação. Conforme a recompensa por crer nestas coisas nunca chegam, o comportamento motivado por estas crenças vai caindo junto.

Em geral, você observa dois tipos de comportamentos gerais quando esse colapso acontece: distração ou depressão.

O primeiro é o caso da pessoa que, diante do sofrimento da vida, escolhe viver sempre só se distraindo e tentando “curtir o momento”, já que aparentemente, qualquer coisa que não seja o momento na vida dessa pessoa não está muito firme. É um comportamento hedonista, na busca do prazer imediato e ilusório já que desistiu do prazer verdadeiro.

O exemplo mais clichê disso é algum jovem que, ao ver sua crença em namoro e casamento colapsando, e ao ser incapaz de reconstruí-la de volta, sai por aí metendo o louco e passando o rodo em relacionamentos casuais.

O segundo comportamento advindo das crenças que colapsaram é a depressão. Se você não se distrai, você se deprime. Em geral, acontece com quem tentou a primeira opção mas não conseguiu sustentar ela por tempo o bastante. Não à toa, rola mais com gente mais velha, já que jovens conseguem sustentar ilusões por muito mais tempo, se apenas tiverem um rolê pra fazer todo fim de semana.

Honestamente? Eu acho que você já chegou nesse estágio em algum ponto da sua vida. Eu já. E é uma desgraça. Você simplesmente não sabe mais no que acreditar, ou o que você acredita não é o bastante pra te tirar da cama.

Por isso é importante você ter crenças que não te falhem.

Mas que crenças seriam essas?

Você não precisa ser um gênio pra chegar a conclusão que a única crença infalível é uma crença que não é só uma crença: é um fato. Um fato observado, provado, verdadeiro.
Lembra do exemplo da crença em tomar água e tal? Então. Você nunca deixou de tomar água, certo? Porque essa crença nunca te falhou. Por ser observável e ter respaldo em fatos.

Eu quero ser sutil aqui, mas vai ser difícil: toda vez que você recorreu a distração ou acabou na depressão é porque você não forjou sua crença bem o bastante. Você não tomou o tempo pra fundamentar suas crenças em cima de fatos.

Ou talvez sua vida seja um passeio na Disney e suas crenças nunca foram tão desafiadas e você não teve de recorrer tanto a isso.

Em ambos os casos, a mensagem desse texto segue a mesma: se você não parar pra construir suas crenças intencionalmente em cima da verdade, é só questão de tempo até que elas sejam desafiadas. É só questão de quando a vida vai fazer suas crenças desmoronarem na sua frente.

A verdade importa. E você deve crer é nela. Todo o resto é brincar com o destino. É torcer pra ele não expor sua crença meia boca que não passa o crivo da realidade.



Aí entra o conceito de Fé. Um conjunto de crenças que permeie toda a sua vida e defina muito de como você interpreta toda a realidade e todas as suas crenças. Se você chegou até aqui no texto, imagino que veja fé como algo sério mesmo, não como algo que gente religiosa tenha por aí pra ficar causando na vida dos outros. É muito triste como esse conceito se liquefez (como muitos outros) na sociedade de hoje.

A fé tem de entrar neste assunto porque, claramente, a experiência humana tem lá suas limitações: os seus instintos não são exatamente os mais confiáveis e você certamente já se ferrou por isso. O seu intelecto é relativo ao tanto de informação que você tem e certamente você não tem toda a informação necessária para entender tudo sobre a vida, nem jamais terá (e se você não tá convencido disso ainda, vish, isso é papo pra outro texto. Ou você pode só passar a prestar mais atenção na sua vida mesmo. Será inevitável não perceber isso.)

Sören Kierkegaard, que tenho como o maior filósofo existencialista, no século XIX argumenta que, para criar crenças que não te falhem e que façam a experiência humana valer a pena, é necessário ter alguma fé justamente por isso. Algo transcendente. Algo além da experiência humana.

Que fé seria esta então?

Kierkegaard aponta que esta fé ela não é uma fé pautada em sentimentos, pelas mesmas razões que acabei de explicar logo acima. Tampouco é uma fé pautada em racionalização. Além do mais, não é uma fé dependente da fé do indivíduo, pois, que deus seria real apenas se você acreditasse nele? Essa história de “cada um tem sua fé”, portanto, cai por terra. Se alguma divindade só é real se você acredita nela, ela não é divindade alguma.

Kierkegaard, é claro, aponta o que seria essa fé. Não é a toa que ele é o maior filósofo existencialista da história humana inteira. Mas eu nem vou mencionar a proposta dele ainda.

Você o chamaria de louco.

Essa parte da busca pela verdade fica mais pra frente.

O ponto aqui é você se dar conta de como chegar nessa fé é trabalho árduo. Não é pra qualquer um. Pra colocar tudo que você acredita a prova desse jeito, tem que ter uma personalidade de aço. Tem que conseguir olhar as suas crenças desmoronando diante de seus olhos e ter coração o bastante pra construir uma crença melhor com os escombros que restaram.

Não é pra quem vai ficar preso num looping de distração e depressão diante da dor da vida.

E certamente, se você passar por esse processo, se tornar um melhor jogador de futebol americano vai parecer um passeio no parque. Chegar na hora no treino, ter reps extras, passar horas vendo vídeo vai ser mais fácil que andar pra frente.




Se você vai levar alguma coisa desse texto, é isso: você acredita em algo, mesmo que você talvez nunca tenha parado pra pensar nisso e viva tentando se distrair. Aquilo no que você acredita é mais importante do que você imaginava no início desse texto. Você deve desenvolver uma crença que não vá te falhar. Uma crença que não vá te falhar vai, eventualmente, envolver algum grau de transcendência. Desenvolver uma crença verdadeira é coisa de gente grande que não tem medo de se lapidar arduamente. E alguém que passa por esse processo certamente se prepara para vencer no futebol americano. Deve achar tranquilo, inclusive.

Se você não aguenta se preparar para vencer no futebol americano, certamente vai pedir arrego ao trabalhar em cima de suas crenças.

Se você se prepara para vencer no futebol americano e nunca construiu suas crenças intencionalmente, agora você não tem mais nenhuma desculpa.

Não dá pra vencer em só uma área da sua vida. Há de se tornar um vencedor em todas. E trabalhar em cima de suas crenças é algo que só vencedores têm o estômago pra fazer.

Se você chegou até aqui, ainda não terminamos.

Até a próxima.

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